Toda menina e jovem deveria crescer acreditando que o mundo é um lugar onde pode aprender, explorar, sonhar e construir o próprio caminho. Deveria se sentir segura em casa, na escola, nas ruas e, mais à frente, no trabalho. Mas para milhões delas, a realidade é outra.
A violência sexual continua sendo uma das mais graves violações de direitos que afetam meninas e adolescentes brasileiras – e vem crescendo a cada ano. Uma violência que não apenas interrompe infâncias, mas também compromete trajetórias de vida, limita oportunidades e perpetua ciclos de desigualdade.
Segundo o relatório Panorama da Violência Letal e Sexual contra Crianças e Adolescentes no Brasil (Unicef e Fórum Brasileiro de Segurança Pública), o país registrou 164.199 casos entre 2021 e 2023, o que significa, em média, uma criança ou adolescente violentada a cada oito minutos.
Os dados do relatório revelam ainda uma desigualdade marcante: as meninas são as principais vítimas (cerca de 88% dos casos registrados), taxas significativamente superiores às observadas entre meninos da mesma faixa etária.
Outra questão alarmante diz respeito à idade das vítimas. Levantamentos recentes indicam que 61,3% dos casos de estupro registrados envolvem meninas de até 13 anos (Fórum Brasileiro de Segurança Pública). É ainda mais perturbador constatar que, muitas vezes, a violência acontece dentro do espaço que deveria proteger: 65,7% dos casos ocorrem na residência da vítima por agressores que fazem parte do círculo familiar ou de convivência próxima.
Mesmo assim, especialistas alertam que os números oficiais podem representar apenas uma fração da realidade. Estimativas indicam que cerca de 7,5% das ocorrências são denunciadas às autoridades, o que evidencia um cenário de forte subnotificação.
O problema também vem assumindo novas formas no ambiente digital. Um estudo recente revelou que uma em cada cinco crianças e adolescentes no Brasil sofreu algum tipo de violência sexual facilitada pela tecnologia em apenas um ano, envolvendo redes sociais, aplicativos de mensagens ou plataformas de jogos online (Unicef).
CONSEQUÊNCIAS QUE ATRAVESSAM A VIDA
A violência sexual não termina no momento da agressão. As consequências físicas podem incluir gravidez precoce, infecções sexualmente transmissíveis e outras complicações de saúde. Mas muitas vezes os impactos mais profundos são invisíveis. Ansiedade, depressão, transtorno de estresse pós-traumático, dificuldades de aprendizagem e abandono escolar são efeitos recorrentes entre vítimas de violência sexual na infância e adolescência.
Também segundo o Unicef, a exposição à violência em idade precoce pode provocar o chamado estresse tóxico, que afeta o desenvolvimento do cérebro e aumenta o risco de problemas de saúde mental, dificuldades de relacionamento e vulnerabilidade social ao longo da vida.
Mas não é só isso. Em pleno século 21 convivemos com um fenômeno, no mínimo, absurdo: ocupamos o vergonhoso quarto lugar no ranking mundial de casamentos infantis, atrás apenas de Índia, Bangladesh e Nigéria. Muitas dessas uniões são informais e envolvem meninas adolescentes em relacionamentos com parceiros significativamente mais velhos sendo que, na maioria das vezes, levam à interrupção da educação, dependência econômica e maior exposição a diferentes formas de violência.
IMPACTO NO DESENVOLVIMENTO DO PAÍS
A violência sexual contra meninas e adolescentes não é apenas uma violação de direitos humanos. É também um obstáculo direto ao desenvolvimento social e econômico.
Quando meninas deixam a escola ou enfrentam traumas que comprometem seu sucesso pessoal e profissional, diminuem as oportunidades de participação econômica, liderança e inovação na sociedade. Estudos internacionais apontam que a desigualdade de gênero e a violência contra mulheres ampliam custos em saúde pública, reduzem produtividade e dificultam o desenvolvimento econômico sustentável.
Ou seja, proteger meninas não é apenas uma agenda de direitos. É uma agenda de desenvolvimento.
NÃO HÁ SAÍDA SEM UMA ATUAÇÃO EM REDE
Enfrentar esse cenário exige coragem e compromisso coletivo, que se concretizam por meio de políticas públicas de prevenção, ampliação de mecanismos de denúncia e garantia do atendimento especializado e humanizado às vítimas, papéis que cabem aos governos.
No que diz respeito ao mundo corporativo, as empresas devem contribuir criando ambientes de trabalho seguros, apoiando programas sociais e investindo na formação e empregabilidade de jovens mulheres.
Organizações da sociedade civil têm um protagonismo essencial na mobilização de comunidades, no apoio às famílias e na criação de oportunidades reais para crianças e jovens em situação de vulnerabilidade.
Quando trabalhamos em rede, ampliamos nossa capacidade de transformar realidades. É por isso que na United Way Brasil acreditamos profundamente no poder das coalizões para enfrentar desafios sociais complexos.
Nossa atuação com famílias na primeira infância e com juventudes das periferias parte de uma convicção simples, mas poderosa: toda criança e todo jovem tem o direito de desenvolver plenamente seu potencial, independentemente das complexidades de seu entorno. Isso passa por promover práticas de parentalidade positiva, apoiar o desenvolvimento socioemocional das crianças e ampliar oportunidades de formação e empregabilidade para jovens.
Neste mês em que celebramos o Dia Internacional da Mulher é urgente passar da indignação para o compromisso. Romper o silêncio, apoiar quem denuncia, fortalecer redes de proteção e fomentar iniciativas que enfrentam as raízes da desigualdade.
Porque quando uma menina é protegida, ela pode estudar. Quando estuda, amplia seus horizontes. Quando encontra oportunidades, prospera junto aos seus. E quando milhões de meninas têm essa chance, transformamos o futuro de um país inteiro.



